Nicole: um nome, duas faces

emanuela leiteEmanuela Vasconcelos Leite*

Passeando pelos recantos da minha convivência defensorial, me senti estimulada a resgatar a memória de um dos mais cômicos acontecimentos que vivenciei ao lado de duas jovens assistidas. Estava eu, a neófita Defensora, armada de teses, leis e jurisprudências, quando adentra à sala uma assistida ainda adolescente que desfere sem pausa seu drama existencial, articulando palavra após palavra, sem me deixar esboçar sequer meu humilde bom dia. Pois bem, fiquei por alguns minutos ensaiando entrar na narrativa e, quando ela tropeçou no pensamento, eu arremessei meu cumprimento matinal, lembrando-a que havia ali uma interlocutora. Acho que minha saudação não abrandou muito seu coração, pois logo em seguida ela desabou:

– Tudo culpa daquela desgraçada.

Pois bem, resolvi tomar para mim a condução da narrativa e consegui entender que a sua frustração era com uma prima de idade similar à sua, que estaria espalhando na cidade (por sinal, cidade pequena) boatos desonrosos à sua imagem e que as duas viviam em pé-de-guerra há algum tempo, provocando até a suspensão das comemorações familiares. As adolescentes já tinham passado por tudo que era instituição e nada havia mudado no quesito respeito mútuo, só me restava, nesse caso, sentá-las para conversar.

No dia designado para nosso encontro, estávamos nós três, além da estagiária que me acompanhava e, entre um xingamento e outro, percebi que elas já tinham sido melhores amigas. Não vacilei, então, em indagar onde a relação havia se rompido e, para minha surpresa, silêncio… Olhei para as jovens e estimulei prioritariamente a moça que me procurou para que falasse alguma coisa, tendo ouvido como resposta:

– Doutora, nós éramos melhores amigas e confidentes fiéis, inclusive, quando eu tinha 14 anos, eu disse pra ela que eu iria casar e ter filhos, mas queria primeiro uma menina e que iria colocar seu nome de “Nicole”, num é lindo!? Pois é, doutora, mas só que essa daí se amancebou primeiro e já teve uma filha… Advinha que nome ela colocou na criança!?

Ora, antes que eu processasse a resposta, a outra jovem se atravessou no diálogo e disse:

– Mas fala o que tu fez, se tu for mulher!”

E começou uma sequência de: “Eu não. Diz tu!”, “Não. Diz tu, que está contando a história!”, “Não. Eu digo é nada!”.

Quando eu ensaiei terminar a conciliação, ouvi um sussurro dizendo:

–   Só porque eu comprei um cachorro.

Esclareci para as duas que queria muito ajudá-las, mas não estava entendendo mais nada do enredo, principalmente, da onde estava saindo o tal do “cachorro”. Munida de toda a raiva que havia em seu íntimo, a “jovem expropriadora de nomes” completou:

–  COMPROU UMA CACHORRA E COLOCOU NELA O NOME DE NICOLE. E HOJE, QUANDO A FAMÍLIA SE REÚNE, NINGUÉM SABE QUANDO CHAMAM A CACHORRA E QUANDO BRINCAM COM A MINHA FILHA. Doutora, qual a punição pra quem faz um crime desse?

Depois da denúncia e da pergunta, a estagiária se ajeitou na cadeira, olhando pra mim, como quem dissesse “ah, essa lição eu quero aprender!”

Eu fiquei simulando uma compenetração, respirando fundo, mas na verdade estava eu ganhando tempo, porque não sabia o que eu iria responder, ou pior, como resolver o drama “antropozoológico” daquelas assistidas que inauguravam minhas sessões de conciliação. Remexi mentalmente tudo que estudei na preparação para tantos concursos… e nada! E, a bem da verdade, é que aquelas duas, com uma querela que mais parecia uma piada, tinham acabado de afugentar tudo (do pouco) que aprendi na teoria e me instigaram a mostrar o meu lado gente, a dividir com elas as vivências que experimentei, me relembrando, inclusive, que eu havia escolhido uma carreira humana e que o inédito seria o ingrediente a temperar todos os meus dias dali por diante.

Portanto, para a decepção da minha curiosa assistente, afastei as teses e doutrinas, e convidei as moças a fazer um passeio por suas infâncias, voltando à bonança de suas amizades, buscando as afinidades adormecidas pelo desgaste. É claro que tudo isso era feito de forma muito sutil, relembrando fatos, brincadeiras e, quando menos se esperava, rolava um sorriso, uma lembrança fagueira, um verdadeiro afago em suas almas sentidas.

Apesar de não terem saído de mãos dadas e trocando segredos, nossas então combatentes encontraram o vazamento do rancor e resolverem estancar o escoadouro dos ressentimentos, estabelecendo compromisso mútuo de evitar as “duas Nicoles” no mesmo lugar, nos mesmos eventos, concordando em se absterem de qualquer depreciação da imagem da outra e, quem sabe, redesenhar o rumo do relacionamento.

É bem certo que o caro leitor gostaria de me perguntar se deu certo a conciliação entre as primas, mas tenho que confidenciar que a Defensoria Pública tem me ensinado a cultivar com determinação as melhores sementes e regá-las com sensibilidade e esperança, mas tenho aprendido, acima de tudo, que para se ter bons frutos é indispensável a cooperação de outros fatores, como o tempo e o solo fértil, sob os quais não posso exercer qualquer influência.

Desconheço, portanto, se ao saírem da sala as jovens reconheceram finalmente em “Nicole” somente um nome, mas com suas duas Faces e, assim, fizeram as pazes definitivamente, ou se nunca mais se falaram, mas fui dormir naquele dia com a certeza de que fizemos uma excelente plantação, entregando mais aquele caso ao Senhor do Solo, do Tempo e de todas as criaturas pra Se encarregar de nos oferecer mais uma boa colheita.

*Defensora pública



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