O desamor em causa própria

Emanuela siteEmanuela Vasconcelos Leite*

Em uma audiência que tinha tudo para ser corriqueira, recebemos um casal. A Senhora X ingressou com Ação de Reconhecimento de União Estável contra o Senhor Y, relatando que ambos viviam como marido e mulher, devendo, pois, tal união ser reconhecida para todos os fins, uma vez que a mesma pretendia ter reconhecido seus direitos de companheira, inclusive, de visitá-lo na penitenciária (Y cumpre pena e tem alguns anos de reclusão ainda pendentes e foi à audiência conduzido pelo agente policial responsável).

Pois bem, imaginei que ambos estariam presentes para fazerem um acordo e, finalmente, o Sr. Y poderia desfrutar da visita de sua diligente companheira. Como de praxe, foi feita a preleção ao Sr. Y sobre as intenções da autora, informando que a mesma teria anunciado seu interesse em reconhecer a união de ambos, bem como ter deferido seu direito de visitá-lo na penitenciária, tendo o mesmo respondido (surpreendendo todos os presentes):

– Como é? Eu não tenho nada com essa mulher! Eu tenho minha companheira que se chama …, recebo as visitas dela e não tenho a menor intenção de reconhecer união com essa senhora que está na minha frente.

Como se não bastasse a inusitada resposta, a Sra. X ainda conseguiu um feito muito superior, ao retrucar:

– Ligue não, Doutor, ele é assim mesmo, rebelde. Já fiz até minha “carteirinha de esposa” e nem preciso mais desse processo aqui, já estou conseguindo entrar pra ver meu marido, o senhor pode até acabar logo esse processo.E quanto a essa pessoa que ele diz ser companheira dele, ninguém abençoa a união, nem eu e nem a mãe dele, é o “gato véi”.

Diante da reação da “liberal” senhora, indagou Y se seria obrigado a receber visita de uma pessoa que ele não reconhecia como esposa e, nós, mas uma vez, procurando respostas (e na vã tentativa de levantar o queixo, que já estavam pra lá de caídos), escutamos mais uma vez de X: “homi, deixa de coisa, que hoje é dia de visita, vou lá fazer os agrados que você gosta e você vai se lembrar que eu sou a sua mulher de verdade.”

O que dizer, ou mesmo pensar, depois de uma cena dessas? E muitos responderiam: “não, mas aí já é demais! Isso não é amor!” Pois bem, realmente a nossa personagem caprichou no abandono de si mesma, mas, em proporções mais discretas, vimos esse “suicídio emocional” se dar nas mais diversas relações, onde as pessoas têm optado por matar seus projetos pessoais e potencialidades em prol do que pode vir do outro, seja este outro um marido, companheiro, filho, irmão ou mesmo um amigo, como se amor comportasse qualquer tipo de diminuição ou decréscimo.

Conviver diariamente com dramas familiares nos instiga a fazer um diagnóstico muito comum: o esquecimento de si em detrimento do outro tem comprometido a saúde dos relacionamentos afetivos, em todas as suas manifestações, e vem sendo responsável pelo rompimento prematuro de muitos vínculos.

Estaria com Renato Russo a razão? Será que “tão contrário a si é mesmo o amor”?

* Defensora Pública



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