O dia em que Alice me parou…

emanuela leiteEmanuela Vasconcelos Leite*

Abre-se a porta para mais um atendimento de trabalho na primeira cidade por onde minha carreira como Defensora Pública começou. Entra uma senhora de meia idade, ladeada por duas crianças, Alice e Joana, de 8 e 11 anos, respectivamente. A mais velha das irmãs tinha um visível retardo da mente, sendo assistida pela irmã caçula até sentar-se, esta que, feito uma nobre dama, também acomodou-se em sua cadeira e aguardou a manifestação dos adultos.

Percebendo o silêncio das três visitantes, tentei deixá-las à vontade e esperei que se familiarizassem com o ambiente e, respeitando seu tempo, perguntei no que poderia ser útil. À minha pergunta reagiu Dona Laura com um desabafo:

– Senhora, a mãe dessas duas inocentes é minha sobrinha e as trouxe para passar uma semana de férias comigo, afinal, não tenho mais crianças. Na hora, não vi nenhum problema em dar uma diversão para as bichinhas. Mas, desde que ela se foi, já se passaram seis meses e nem sinal eu tenho dessa mãe. Ela não atende os meus telefonemas, não deixou endereço e nem dinheiro para me ajudar nas despesas. Não sei o que fazer com elas, doutora. E morro de pena delas, pois estão sem estudar, sem luxo nenhum, mas cismaram que não querem mais voltar pra mãe. Acho que vamos ter que procurar alguém para adotá-las, pois eu não tenho como dar de comer a mais duas bocas.

Após a pausa na narrativa, olhei para as duas pequenas como que na tentativa de sondar mentalmente de onde vinha a força e a serenidade com que elas escutavam tudo aquilo, inabalavelmente. As declarações da tia, a um só tempo, davam conta do desamor de sua mãe por elas, mas também anunciava a sua falta de condições para mantê-las consigo e das incertezas do futuro que lhes aguardavam, quiçá em um lar desconhecido. Quando eu estava prestes a eleger a inocência como a grande responsável por toda aquela serenidade, Alice me guiou com um desmotivado sorriso ao arremate de minhas conclusões.

Afastei-me das divagações mentais e voltei para o cenário posto diante de mim, perguntando para a Senhora Laura se existiam outros parentes que poderíamos contatar para saber notícias da mãe das crianças, tendo ela feito menção à existência de uma avó (irmã da Sra. Laura) que residia em São Paulo, mas que também não tinha qualquer contato com a filha (mãe das crianças).

Antes mesmo que cogitássemos qualquer nova ideia, Alice pediu para falar, no que me organizei para ouvi-la:

– Doutora, não adianta de nada tentar encontrar minha mãe. Ela não quer a gente, porque nós atrapalhamos a vida dela com o novo marido. Ela trouxe a gente pra cá com a desculpa das férias, mas eu já sabia que era de vez. Só minha tia que não desconfiou de nada. Minha irmã não sabe lhe contar nada, porque ela é desse jeito que a senhora está vendo e ela fala muito pouco, mas eu não esqueço de nada que minha mãe já fez pra gente e não quero mais voltar pra ela, não. Uma vez ela saiu e não deixou nada pra gente comer. Eu achei um resto de baião na geladeira, misturei com mais algumas coisas que encontrei e comi e dei pra minha irmã. Quando ela chegou, achou que eu tinha bagunçado a cozinha e me bateu muito. Eu chorei até dormir, mas graças a Deus, ela não fez nada com a Joana, porque quando ela apanha, aí é que não fala mais mesmo. Eu acho que ela piora. Doutora, eu fico com qualquer pessoa, mas tenho que estar com a Joana, porque só temos uma pela outra.

Quando Alice parou de falar, eu, ainda atônita com suas declarações, consegui fotografar mentalmente sua imagem, com a programada intenção de levar para a minha vida a sua lição. Uma criança fisicamente linda, portadora de uma lucidez impecável, consciente de suas limitações e dramas, mas disposta a vivenciar qualquer que fosse a solução que os adultos lhe assinalassem, desde que também contemplasse sua irmã.

Como uma saída objetiva para aquele drama, conseguimos contatar a avó da Alice e Joana, que se disponibilizou a ficar com as netas e a promover os seus cuidados, desde que pudesse morar com elas em São Paulo. Ingressamos com a ação cabível e, no dia em que eu me despedia dessa Cidade por onde passei, a avó das crianças chegou para finalizar o processo e levá-las consigo, num encontro de muita esperança e alegria pela vida nova.

E foi assim que, renunciando graciosamente à sua fase de interrogações infantis, Alice me parou naquele dia e, em meio a um sorriso, me ensinou o que é preciso para ser feliz!

*Defensora Pública em Sobral



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