O ninho enjeitado

emanuela leiteEmanuela Vasconcelos Leite*

Todos os dias, temos a possibilidade de aprender valores inestimáveis para as nossas vidas, a partir da observação responsável do que se passa com o outro, em seus acertos e deslizes, nesse horizonte vasto e desconhecido da construção intelecto/moral.

 Numa dessas “observações”, intermediando conflitos alheios, tive oportunidade de sentar com um casal que estava separado e buscava solucionar, de forma consensual, a pensão alimentícia a ser paga em favor dos filhos menores.

 Abrimos nosso momento com algumas orientações sobre a importância daquela tentativa de diálogo e de mantermos o bom nível das nossas falas, bem como o respeito recíproco. Percebi que, enquanto eu falava, Ricardo – um dos participantes – ria bastante, e incondicionalmente, como se achasse muito curioso todo aquele esclarecimento e cuidado com que eu buscava tratar a situação dele. Prossegui no meu raciocínio, dando oportunidade para que Rita iniciasse suas considerações sobre a razão de ter nos procurado.

 Rita nos esclareceu que tinha gerado dois filhos com Ricardo, o Lucas e o Miguel, e que a pensão que Ricardo pagava era insuficiente para o sustento dos adolescentes, sugerindo que ele aumentasse o valor. Perguntei-a o que Ricardo fazia da vida, no que ela respondeu que ele era Catador de Lixo e que recebia pouco mais de um salário mínimo por mês.

 Quando Rita concluiu sua fala, passei a palavra para Ricardo. Logo na abertura, ele sentenciou:

 – Eu posso aumentar um pouquinho essa pensão, mas não o que ela está pedindo. Sou assalariado, senhora. Os filhos dela aí já estão grandes e tenho outros seis que também precisam de mim. È menino demais: oito ao todo! 

 Observei que a questão alimentar precisava sair do foco, uma vez que a relação paterno/filial merecia uma reflexão por parte dos envolvidos. Perguntei a Ricardo se ele sentia falta da convivência com os filhos, me repostando ele, sem hesitação:

 – Não senhora! Pode colocar como posso pagar a pensão, mas não precisa se preocupar com negócio de contato com menino não. Está tudo bem assim. Meu amor é visual. Se eu vejo, gosto e falo, mas se eu num vejo, nem me lembro que existe.

 A lição mais importante que a prática da mediação me trouxe foi a convicção de que não sou juíza da causa de ninguém e, sendo assim, não devo me chocar com as suas convicções íntimas,  posto que desconheço o que as fundamenta.

 E assim, perguntei a Ricardo como ele se sentiria se ocupasse o lugar dos meninos e se, semelhante aos menores, fosse também abandonado afetivamente por seus pais. Ele fez um breve silêncio, seguido de um honesto “não sei”, considerando, em seguida:

 – Taí, agora a senhora me perguntou uma coisa que nunca ninguém tinha me cutucado. Se minha mãe quisesse me esquecer, eu esqueceria ela também. Na verdade, ninguém salva ninguém. A salvação é individual! Deus por todos nós e cada um por si. E já me afastei tanto desses meninos aí, que tenho é vergonha deles. Acho que, no dia que eu ver minha mãe, também vou ter vergonha dela. E essa conversa tá rendendo, né!? Achei que o negócio aqui era só a pensão.

 Nesse momento, analisei que, se me cabe plantar uma semente, não é menos certo que é preciso confiar no tempo e nas forças da vida. Aquele terreno onde me aventurei a plantar ainda se mostra inóspito, ainda indisponível para o cultivo exitoso de afetividades. Era preciso reconhecer que somos impotentes para corrigir, em um único contato, experiências mal sucedidas de uma vida inteira.

 Rita disse a Ricardo que os meninos estavam disponíveis para vê-lo quando ele quisesse e que o caçula sentia muita falta dele, mas que ele se apressasse, pois o mais velho já estava quase o esquecendo, tendo ele retrucado:

 – Agradeço muito aí a Doutora pela chance de deixar a gente falar. Achei até isso tudo bem engraçado, a senhora me chamando de senhor – mas, de onde eu venho, o negócio não é bonitinho assim, não. É como diz aquela música: o meu pai foi peão, minha mãe solidão, meus irmãos se perderam foi tudo. Enfim, se há sorte, eu não sei, nunca vi. É isso aí. Eu estou vivinho sem ter meu pai por perto, meus filhos também vão se safar.

 A aquisição da racionalidade pela espécie humana ainda não é capaz de neutralizar em nós posturas e sentimentos genuinamente instintivos e primários. A escolha de Ricardo nos remete ao comportamento de alguns pássaros que, sob ameaça ou diante de sinais de predadores, abandonam seus ninhos, numa eterna busca por paragens mais seguras, nos trazendo a certeza de que serão necessários aprimoramentos morais relevantes para que possamos contemplar os benefícios de conviver entre Seres, essencialmente, Humanos.

 Por fim, identifiquei as balizas traçadas até ali e, obedecendo ao desejo de Rita e de Ricardo, escrevemos o acordo relativo somente aos alimentos dos filhos, sobrando para mim a postura passiva de manter a torcida por um futuro de mais encontros, de mais amores, iluminando essa “mina escura e funda, o trem ‘das nossas’ vidas”.

*Defensora Pública do Estado do Ceará



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