Quando tudo for pedra, atire a primeira rosa

Emanuela siteEmanuela Vasconcelos Leite*

Em uma audiência que decidiria a guarda de quatro crianças entre um dos genitores, ouvimos da mãe litigante: “Dr. pode ‘ajeitar’ mesmo pra mim só a guarda dos três mais novos, viu! A mais velha não me interessa, pois ela não me obedece mais”. Ao perceber o pesar que se abateu sobre todos os presentes, a espontânea senhora tentou ensaiar uma pálida justificativa de que a adolescente estava agindo por vontade própria, andando em más companhias e indiferente aos conselhos ministrados, não havendo, pois, segundo a mãe, mais nada a fazer pela sua formação.

O pai, por sua vez, rebateu que se a filha estava “perdida” era por culpa da mãe que nunca soube educar e que, depois “do negócio estar sem jeito”, ele também não iria ficar com “a bronca pra cima dele”, concluindo que era melhor deixar a filha com sua avó paterna, já que assim havia decidido a incontornável adolescente.

É corriqueiro presenciarmos a triste disputa judicial de pai e mãe por seus filhos comuns, mas me surpreendi intimamente com minhas certezas ao constatar que tristeza maior é presenciar a renúncia de ambos os pais pelo convívio diário e o amor insondável de um filho. Numa situação como essa, apressadamente, nos preparamos para exarar a sentença moral: “mãe desnaturada”, “pai omisso”! Mas, sinceramente, não contamos com critérios mínimos de segurança para analisar criticamente as atitudes narradas.

Não podemos, em um contato de alguns poucos minutos com os personagens desse enredo, dizer se estão cansados, desesperados, desinformados ou malformados, não conhecemos seus “berços”, tampouco suas “escolas”, por isso, particularmente, me entristeço – como a grande maioria – e sinto abrir no peito o vazio de mais uma família em desengano, mas não porque cruzei no meu dia com uma “mãe sem coração”, não! Me entristeço porque concluo que os abandonos e desenlaces que presenciamos são reflexos de um descompasso de sentimentos entre nós, seres humanos, que há milênios tentamos nos ajustar, mas somos bloqueados por sentimentos menores que insistimos em cultivar.

Portanto, o que se rompe diante de estranhos em uma sala de audiência é só o último suspiro de uma agonia que as pessoas experimentam em anos de convivência, repita-se, tudo porque nos conhecemos pouco e amamos mal a nós e aos outros e, a partir daí, corremos o risco de escolhermos parceiros equivocadamente, frustarmos as regras de planejamento familiar, assumir comprometimentos patrimoniais e, somados a tantos outros desencontros, instalarmos o caos emocional e psicológico em nossas vidas.

E o desfecho da história? Bem, a adolescente ficou sob os cuidados (não se sabe de que jeito!) da avó paterna e vai seguir sua jornada com grande probabilidade de se unir ao primeiro parceiro que sinalize com a intenção de cuidá-la e protegê-la, interromper os estudos, ter filhos prematuramente e, bem, deixemos de especulação e fiquemos na torcida para que ela possa reescrever com mais sucesso seu retrato familiar.

Mas, se porventura nossa pequena rebelde desistisse, no futuro, de algum dos seus filhos, alguém ousaria atirar a primeira pedra?

Se caminhamos como diz a música de Lulu Santos, “a passos de formiga e sem vontade”, que possamos aproveitar a marcha lenta parando para refletir um pouco nos acostamentos do caminho.

*Defensora Pública



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