Três casos e “um acaso”

emanuela leiteEmanuela Vasconcelos Leite*

Estava eu passando a limpo alguns fatos arquivados na minha instável memória, quando me deparei com um curioso atendimento que a nuvem do tempo já pelejava para embaçar.

Nossa personagem é uma jovem recém-saída da adolescência, com um visível cuidado por sua aparência física e uma curvilínea silhueta, destacada pela roupa justa que lhe contornava o corpo. Entre uma bola e outra de chiclete que mascava, Vládia me dirigiu um descolado “olá”. Correspondi ao cumprimento e iniciamos o diálogo pela minha fala:

– Estou vendo aqui no seu processo que você teve um filho e busca confirmar a paternidade. Estou certa? – indaguei

– Sim. É isso mesmo! – Respondeu Vládia.

Dei seguimento à conversa com certo constrangimento, pois, olhando o processo de trás pra frente, percebi que o exame de DNA não confirmava a alegada paternidade. Então informei a Vládia que Pietro não seria o pai biológico do pequeno Nélio. No entanto, após a notícia, me vi surpreendida com a resposta:

– Ah, eu já sabia, doutora. Mas a senhora pode confirmar os outros dois, por favor! 

Corei de vergonha pelo meu lapso: não tinha percebido que o processo tinha três supostos pais (o que é incomum nestes casos). Quando me dei conta, pedi desculpa e passei a analisar os outros dois exames. Comecei a passar e voltar folhas, como quem procurasse a razão de uma suposta coincidência que encontrei e, quando armei a pergunta, ouvi uma apressada justificativa:

– A senhora está estranhando os nomes parecidos, né!? Mas, é isso mesmo. São todos da mesma família. O pai e os seus dois filhos. Eu trabalhava na casa deles… 

Na profissão que abraçamos, somos praticamente treinados – pelas circunstâncias em que atuamos – para não nos chocarmos com as excentricidades da vida, mas a programação falha excepcionalmente e,  quando me vi, já estava de olhos arregalados, fitando emudecida minha assistida, que não hesitou em explicar suas inexplicáveis razões:

– Doutora, trabalhei  na casa deles tanto tempo e todos três eram tão gente boa… mas o filho que tive foi um acaso. Não queria prejudicar ninguém. E estou curiosa pra saber qual dos três é o pai. 

Não consegui conter a curiosidade e perguntei se o pai dos dois rapazes era casado, tendo disparado Vládia:

– Casado e muito bem casado, doutora. Moravam os quatro juntos. Eu lamento muito toda essa confusão, pois eu gostava muito da minha patroa. Mas você sabe como é!? Agora tenho que saber quem é o pai do meu filho. Esses papéis já deu tanta briga.

A jovem liberal fez uma tremenda bagunça nos meus valores, desfilando seu falar simples entre a ingenuidade típica de seus poucos anos e a esperteza própria de quem é criada pelo mundo.

Descobrimos, pelos exames, que o pai do tenro inocente deste enredo era o caçula dos irmãos, Moisés, o que não fazia a menor diferença para a desnorteada mãe, desde que o pagamento da pensão  da criança chegasse  em sua conta bancária todo mês. Quanto ao afeto, ela já sabia que nada poderia esperar daquela família.

Entre o cômico e o trágico dessa trama cabem muitas especulações acerca da “moral da história”.

Eu, de minha parte, continuo mais convicta da incapacidade que tenho de analisar as motivações que antecedem os deslizes morais, sejam eles quais forem. Mas, de uma certeza não posso me esquivar: Nélio não é filho do acaso, como acredita nossa protagonista.

Nélio é uma resposta natural à uma ação escolhida por quem o gerou; uma reação da vida correspondente ao pacto informal e inconsciente de seus pais, nos levando à conclusão de que toda dificuldade que se impõe na criação do pequeno Nélio é mais um convite da vida ao exercício responsável do “façamos ao outro aquilo que gostaríamos que o outro nos fizesse” e, ajustando nossos passos, estaremos mais imunes aos “acasos” do caminho.

*Defensora Pública em Sobral



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