emanuela leite

Emanuela Vasconcelos Leite*

Estava em um dia de trabalho agitado, encurralada entre atendimentos complexos e petições urgentes, quando recebo o chamado para mais uma audiência. Deixei o que estava fazendo e subi ofegante ao compromisso anunciado.

Entrei na sala exalando o dinamismo daquele dia, mas incorporei rapidamente o espírito necessário para o ato vindouro e acariciei os circunstantes com um caloroso cumprimento matinal. Todos corresponderam à saudação, com a incongruente exceção da minha própria assistida, que me recepcionou com ar de “poucos amigos”.

Não entendi a fria receptividade, nem sabia o que já havia se dado até ali, mas logo me foi dado o ensejo de “cair a ficha”, quando a juíza demandou:

Doutora, explique à sua assistida a natureza dessa ação e o que ela veio fazer aqui hoje, porque parece que ela não está conseguindo entender a repercussão dessa ação.

Pedi licença à magistrada para ver novamente o processo e observei que a senhora Lúcia – minha estranha assistida – havia ingressado com uma Ação de Divórcio em desfavor de seu marido Paulo, pleiteando ainda pensão alimentícia para a filha do casal e que o único bem adquirido ficasse para a criança, como uma forma de garantir-lhe o futuro.

Anunciei ao senhor Paulo às pretensões da senhora Lúcia, mas ela me interrompeu bruscamente:

– Eu mesma não pedi nada disso. Não sei por que colocaram tudo isso aí nesses papéis e muito menos queria estar aqui olhando pra cara desse infeliz.

Eu tomei para mim a vez da palavra e ponderei que ela própria havia ingressado com o pedido, mostrando-lhe sua assinatura, argumentando, ainda, que o Defensor Público só colocou no papel aquilo que lhe foi pedido. Diante da minha consideração, se abre diante de mim essa caixinha de surpresa chamada ser humano, me dando a conhecer mais uma particularidade de suas inúmeras facetas, com a confidência da senhora Lúcia:

Ah, eu fiz esse pedido aí pra dar um susto nesse traste. Mas eu não sabia que ia ser chamada pra audiência e que era de verdade esse negócio de separar pra sempre. Quero mais isso não.

Mencionei fazer mais algumas explanações, quando o senhor Paulo atravessou-se no meio do diálogo e disse:

Olhe aqui, você só antecipou o pedido que eu já ia fazer. Agora sou eu que quero esse divórcio e não estou sujeito à sua boa vontade, viu. Concordo com a pensão e com a proposta de a casa ficar com minha filha. O assunto está encerrado.

Diante da manifestação do senhor Paulo, expliquei para a senhora Lúcia que ela não teria mais como recuar, já que ela mesma havia formulado o pedido e ele anuiu em todos os termos. A sala ficou em silêncio. Todos nos olhamos. Até que um estranho barulho nos arrancou da apatia. Lúcia arrastou sua cadeira violentamente, voltando seu corpo em direção à sua bolsa do lado e, nesse momento, como que em gesto simetricamente ensaiado, estávamos a juíza, o escrivão e eu instintivamente protegidos embaixo de nossas respectivas mesas, ficando somente o senhor Paulo de corpo reto e, portanto, receptivo para a certeira bolsada desferida por sua desapontada esposa.

Quando percebemos que não se tratava de uma arma mortal, tratamos de restabelecer, de faces enrubescidas, nossas devidas posturas, aguardando o pronunciamento judicial sobre o inesperado ocorrido. No entanto, antes mesmo que a magistrada pudesse se posicionar, a senhora Lúcia sentenciou:

– Infeliz, eu vou te matar! Tu vai se arrepender de ter vindo aqui neste dia. Você não perde por esperar.

Ao esbravejar, Lúcia selou o seu destino, pois não restava mais opção à nobre Meritíssima além de decretar a prisão em flagrante da atrevida senhora, esta que recepcionou a ordem com destemor e sem qualquer menção a arrependimentos. Enquanto esperávamos o policial para dar cumprimento à determinação judicial, Lúcia ainda olhou para o senhor Paulo e ironizou:

Tu quer morrer como? Ainda te dou esse direito, pra tu não dizer que nunca prestei…

Com esse último ataque, a já impaciente juíza ordenou que a senhora se contivesse, pois sua situação já estava encrencada o suficiente, ouvindo como resposta mais um desacato:

A senhora já decretou minha prisão, num já!? Pois deixe eu falar aqui ou então, se não quiser me ouvir, mande logo o policial me levar.

Com alguns minutos, o policial conduziu a desorientada senhora à Delegacia para lavrar o flagrante e ficamos todos com a nítida certeza de que Lúcia queria atingir a ela mesma, que brigava com suas próprias vontades, pois se dividia entre o amor não mais possível e a dura conclusão do fim de uma vida incomum, cujos momentos finais foram marcados por uma sequência de escolhas irrefletidas de sua parte. Uma verdadeira caçada a si mesmo que se reflete na imagem do outro.

Terminado esse dramático encontro, vaguei pelos corredores do Fórum, me perguntando o que teria faltado para evitar aquele fim constrangedor, recebendo de minha intuição o incontestável consolo de que nenhuma providência será o bastante onde a previdência não se fez presente.

* Defensora Pública com atuação na área do Direito de Família em Sobral

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