fotohis“Há quem pense que as campanhas dos defensores são para o aumento de salário, mas a verdade é que o objetivo é melhorar as condições de trabalho”. A frase do defensor público aposentado José Valci Cardoso aponta um cenário em que os defensores públicos vêm cada vez mais fortalecendo seu papel de agentes transformadores da sociedade, lutando por uma instituição equânime em relação aos outros órgãos do sistema judiciário do Estado. Valci é testemunha ocular do processo crescente de valorização do papel do defensor, mesmo quando isso ocorria em passos ainda mais lentos, tendo em vista os anos em que ele atuou numa pequena casa alugada pelo Estado e sem condições ideais para o trabalho, na cidade de Aracati.

Dr. Valci engrossa a lista de profissionais pautados pelo compromisso com a Justiça e com o cidadão. Nada mal para um garoto simples nascido em Quixeramobim e curiosamente registrado em Fortaleza, filho de uma dona de casa e de um agricultor que progrediu na vida a custa de muito trabalho, tornado-se um próspero comerciante. Dos pais Valci puxou a honestidade, a força de vontade e a gana de vencer na vida. Talvez por isso não tenha titubeado em deixar cedo a família, aos 14 anos, para se aventurar em morar numa cidade maior, até chegar a Fortaleza, onde cursou alguns anos a então Escola Industrial, hoje Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFET), seguindo para o Colégio Liceu do Ceará.

Precoce, ainda adolescente começou a trabalhar na Fundação Sesp, na área contábil. Também na adolescência, conheceu a companheira de décadas, dona Ivonete. Ao prestar vestibular, Direito não era a primeira escolha de Valci, que inicialmente tentou Economia, mas por conta da pontuação, acabou optando pelo Direito, área que possibilitou sua realização profissional, como ele mesmo diz. Ao concluir o curso, mudou-se com a família para Aracati e montou um escritório, mas tinha dificuldade de cobrar os honorários, sensibilizado com a dura realidade dos clientes. Assim, ingressou através de concurso público na profissão de defensor, então advogado de ofício.

Foram anos exercendo com dignidade e entusiasmo esse papel. Tanto é assim que lembra com saudosismo das tantas vezes em que beneficiou pessoas simples através do seu trabalho como defensor, como quando apesar de todas as dificuldades conseguiu obter uma pensão para uma pobre senhora que havia perdido o companheiro e que, por não ser casada no papel, não teria à época nenhum benefício. “Ela havia ficado sem nada, mas conseguimos que ela fosse beneficiada através da comprovação de um filho natimorto”, lembra.

Após atuar na comarca de Aracati, Dr. Valci foi transferido para Fortaleza, tendo trabalhado na 3ª Unidade do Juizado do Mucuripe, em paralelo com a atuação na 26ª Vara Cível, onde ficou até se aposentar. Perguntado sobre a vida de aposentado, ele revela que ainda hoje trabalha em algumas causas, inclusive por conta de dois de seus quatro filhos, que seguiram a profissão de advogado. Relutante em dar a entrevista para o “Minha História, Nossa Luta” por acreditar que apesar da dedicação à profissão não havia nenhum fato peculiar que justificasse a entrevista, Dr. Valci mostra que assim como tantos grandes homens da vida real, ele não disserta em benefício próprio, mas ilustra o valor e a dignidade de quem faz a sua parte por um mundo melhor.

Por Lucílio Lessa

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