foto cafePerseverança e generosidade são qualidades que cimentam o caráter da defensora aposentada Francisca Neli de Souza. Como traço de personalidade, ela traz consigo ainda o tom altivo e prático característico dos experientes, de quem tem muito a contar. Se sobra em Neli segurança, fruto de vivências adquiridas por conta de uma trajetória a princípio comum a tantos defensores, falta medo de enfrentar os desafios que ela propõe a si e que giram em torno da doação à família, bem como dos afazeres de uma rotina aparentemente simples, mas que exige a serenidade que só o tempo ensina.

As belezas da pequena cidade de Horizonte compõem o cenário em que Neli cresceu. Filha de pai agricultor, posteriormente comerciante, e mãe professora, cedo ela decidiu que precisava buscar outros horizontes para conquistar seus objetivos. Foi aos 15 anos que Neli partiu para Pacajus, para morar na casa de uma comadre da família, que era tabeliã. “Neófita” de tudo, se interessou ali pela área do Direito. E voltou-se ainda mais para os estudos, apesar das dificuldades, pois apesar de morar numa cidade pequena, seus desafios eram grandes. “Quando eu ia para a escola, só tinha horário para sair, pois dependia de carona para me locomover. Às vezes tinha que sair mais cedo da aula para poder chegar em casa”, conta.

Não tardou, Neli foi morar em Fortaleza, na casa de uma prima, e em seguida na casa de sua madrinha. Foi quando os pais compraram uma pequena casa na capital, onde ela e os irmãos passaram a morar (ao todo eram 13 filhos). Neli estudou no Educandário Dom Bosco, Colégio Dom Bosco e no Instituto de Educação. Ao decidir cursar Direito, ouviu da mãe: “Deus me livre uma filha advogada”. Ela conta o motivo. “Minha mãe era professora e sonhava que eu seguisse seus passos. Cheguei a fazer o Curso Normal”, diz. E mesmo com uma aptidão inata para o Direito, ainda tentou Economia. “Mas Direito é o melhor curso. Sempre cheguei antes do professor na sala”.

De lá para cá, a Dra. Neli coleciona uma série de conquistas na área. Após anos atuando em um escritório que montou com amigas da Faculdade, iniciou sua trajetória como defensora pública, então advogada de ofício, após ser aprovada em concurso público. Trabalhou no atendimento do Fórum Clóvis Beviláqua, seguido do IPPS (Instituto Penal Paulo Sarasate), onde exerceu a função de Chefe do Departamento Jurídico. “Entrava e saia receosa de lá”, diz. Passou ainda três anos no Caje (Centro de Atendimento Juvenil Especializado) e ficou à disposição por 14 anos da Procuradoria Geral do Estado, onde foi membro da Comissão de Processo Disciplinar. “Depois voltei para a Defensoria Pública Geral, onde fiquei até me aposentar”.

Certa das escolhas que fez, Neli hoje dedica seu tempo a quem ama. Rodeada pela mãe, irmã e sobrinhos, ela revela com bom humor que depois que se aposentou continuou a trabalhar muito, mas desta vez como uma dedicada dona de casa, que com seu exemplo de obstinação certamente inspirada a quem tem o privilégio de sua companhia. Ao ser perguntada sobre qual seria sua avaliação sobre a profissão de defensor, ela dispara com a assertividade de sempre. “É uma profissão de muita luta, um trabalho bonito, essencial”.

Por Lucílio Lessa

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