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No último dia de prova do vestibular para a faculdade de Direito, foi convidada a acompanhá-los. Os pais nem sonhavam com o que acontecia, enquanto ela seguia indefesa, naquele automóvel, cercada por aqueles desconhecidos que teoricamente deveriam estar ali para defendê-la, mas que de fato não tinham as melhores intenções. Ao chegar ao local, foi encaminhada a uma sala isolada. Lá ficou, até que finalmente eles se aproximaram e começaram a interrogá-la. Aqui e ali um ou outro abria e fechava a porta numa dinâmica que de tão casual passou a ser ameaçadora, claramente uma tentativa de dar-lhe um recado, como quem diz: da próxima vez, entro e bato para valer. A jovem era a hoje defensora pública aposentada Lúcia Maria de Souza Norões Milfont. Já eles eram os policiais que serviam ao regime militar.

Apesar do terror, não houve violência física. Mas restou o sentimento de indignação em Lúcia, então uma estudante que lutava pelo coletivo. “Queria uma liberdade plena. Sempre quis transformar o mundo”, ressalta. Filha de um comerciante e de uma dona de casa, ela e os 9 irmãos passaram a infância na cidade de Baturité. O pragmatismo puxou do pai, um senhor austero e entusiasta das ciências. De lá, seguiu para Maranguape, onde estudou em um internato, até que seguiu para a capital a fim de fazer Medicina. Diante do contexto político em que vivia, decidiu mudar e resolver cursar Direito, tamanha sua necessidade em contribuir politicamente para o fim da Ditadura Militar. Certa vez chegou a esconder a agenda da militante Rosa da Fonseca, para que ela não fosse presa pelo regime. A pedido do então namorado e futuro marido, que conheceu na faculdade de Direito e que tornou-se promotor de Justiça, se afastou das manifestações. “Me apaixonei e deixei a luta”, diz. Mas não perdeu a gana em fazer a diferença.

Ainda na faculdade, fundou com amigas o Clube da Luluzinha, em contraponto ao Diretório Estudantil, que não aceitava mulheres. À época, estagiou no Fórum Clóvis Beviláquia. Ao concluir o curso, foi aprovada no 1º concurso para advogado de ofício, hoje defensor público, tendo trabalhado sempre em varas criminais. Atuou no Manicômio Professor Otávio Lobo, onde iniciou suas pesquisas com criminosos com desvios de conduta; e foi diretora do Presídio Feminino Desembargadora Auri Moura Costa. “Em minha gestão, nunca houve uma rebelião”, ressalta. Certa vez, uma detenta de alta periculosidade que havia sido transferida para o presídio, orquestrou seu seqüestro, mas antes da ação, as outras detentas fizeram chegar à Lúcia o propósito. “As presas fizeram quase uma revolução para que isso não acontecesse”, relata, com gratidão. De lá, retornou ao Manicômio Professor Otávio Lobo, onde se aposentou.

Com tantas histórias fortes para contar, Lúcia destoa da imagem que se espera de alguém que passou por esses percalços. Na verdade, ela pode ser traduzida como uma mulher serena, que sabe separar o trabalho da vida pessoal. Tanto é assim que serviu de exemplo para os dois filhos, que também se tornaram advogados. Intelectual, Lúcia se dedica hoje aos estudos da criminalidade, estando às voltas com a conclusão de sua pesquisa. Trata-se de uma estudiosa da mente humana, que parece ter encontrado a receita para o bem estar em meio a uma realidade social que ela ainda sonha em mudar, sempre atenta às necessidades do coletivo.

Por Lucílio Lessa

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