gracaSão muitos os recortes da trajetória de Maria da Graça Reis Pinto. Representante de uma geração em que a mulher dava passos decisivos para tornar-se protagonista de suas próprias vidas, ela combina perfil de evidente profissionalismo com uma alma leve, inquieta. Consciente de suas realizações e com metas desafiadoras pela frente, Graça definitivamente não se filia a padrões comportamentais provincianos. Tampouco se esquiva de uma boa briga quando esta é necessária. Mas o que realmente traduz sua natureza é uma inspiradora certeza de que, para ela, a prova dos nove é ser feliz.

Tão fascinante quanto a figura irreverente da Dra. Graça é sua história de lutas. Nascida no Maranhão, em uma cidade chama Timbira, ela conta que seu primeiro desafio surgiu pouco antes de nascer, quando sua mãe quase deu a luz numa viagem de trem. “Minha avó fez uma promessa para Nossa Senhora das Graças, então minha mãe chegou a tempo para dar a luz em casa”, conta. Daí vem seu nome, uma homenagem à santa, de quem é devota.

Em sua dissertação detalhista, Graça também chama atenção pelas referências ao pai, com quem ela sempre manteve uma relação de extrema cumplicidade e admiração. “Ele era geminiano, como eu. Herdei dele o amor pela natureza”, diz ela, quarta mulher em uma prole de oito irmãos. Da infância, Graça ainda pontua os anos em que morou em Natal, até a família decidir residir definitivamente no Ceará. “Sou maranhense por nascimento, natalense de paixão e cearense de coração”, brinca.

Na adolescência, inicialmente propensa a fazer medicina, decidiu cursar Direito, apaixonando-se pela profissão. Ainda na faculdade, foi testemunha de momentos dramáticos nos anos de chumbo, como quando sua colega de quarto, a militante Rosa da Fonseca, foi levada pelos militares. “Foi um período muito difícil. A gente chegava na sala de aula e se dava conta do sumiço de colegas, que tanto poderiam ter sido levados e mortos, como poderiam ser policiais infiltrados. Certa vez perguntei em sala porque o Congresso Nacional havia sido fechado. Resultado: enviaram meu nome para a Polícia Federal”, recorda.

À época, a vontade de ser independente levou Graça a iniciar uma atividade de vendedora na Casa Parente, loja tradicional da capital cearense. A experiência durou apenas seis meses e ela, juntamente com uma amiga, começou a trabalhar na área do Direito mesmo antes de terminar o curso. O escritório cresceu, até que ambas decidiram enveredar pelo serviço público.

De lá para cá, o currículo é extenso: chefe de setor na Procuradoria Judicial do Dert; 1ª mulher diretora da Colônia Agrícola do Amanari; diretora da Adpec; diretora do Manicômio Judiciário – Instituto Psiquiátrico Governador Stênio Gomes; Defensora do Centro Comunitário do Conjunto Tancredo Neves e do Núcleo da Defensoria na Barra do Ceará; e defensora pública da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Ceará, tendo atuado ainda na Casa do Cidadão e na Curadoria Especial.

Entre tantos episódios de uma vida profissional em que a adrenalina foi um ingrediente constante, Graça lembra de quando recebeu 40 presos da mais alta periculosidade na Colônia Agrícola do Amanari. “Eles eram tratados a pão de ló e um dia soube que planejavam me escorar (puxá-la na grade e fazê-la refém)”, recorda. No dia seguinte, Graça pediu para o carcereiro, atônito, para abrir a cela. “Quem quer me escorar aí?”, perguntou. A partir daquele dia, passou a visitar o grupo dentro da cela. Perguntada se teve medo, Graça afirma. “Medo não, mas sempre tive prudência”.

E é com prudência e coragem que Graça continua sua história. Com prudência e coragem mudou a realidade de onde passou, possibilitando inclusive a ressocialização de detentos através da criação de empresas internas, para que os presos pudessem se sentir úteis. É com prudência e coragem que esta capoeirista curte a vida ao lado do atual companheiro e de seus quatro filhos, seja na vida em família, na capoeira, no escotismo, no ciclismo, ou até mesmo no stand up paddle, esporte que vem se aventurando recentemente. Desafios que não a assustam e que definem alguém que segue a risca o lema do movimento escoteiro: Sempre alerta!

Por Lucílio Lessa

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