A Dra. Nívea Rolim é a quarta entrevistada do quadro ‘Minha História Nossa Luta’, que tem como objetivo destacar as atividades dos Defensores Públicos que hoje estão aposentados e que deram grande contribuição para o fortalecimento da Defensoria Pública no Estado.

Nívea de Matos Nunes Rolim

O tom firme e o jeito irreverente da ex-presidente da Adpec, Nívea de Matos Nunes Rolim, se equilibram de forma coesa e denotam o perfil arrojado de quem não se intimida diante de desafios. As memórias esmiúçam detalhes de uma trajetória singular, na qual o amor pela família, pela profissão e pelas causas sociais ilustram uma natureza nobre e ratificam o que é nítido já nos primeiros minutos de conversa: sua genuína capacidade de defender aquilo que acredita.
Como um roteiro prévio organizado, Nívea de Matos, terceira de sete mulheres entre nove irmãos, conta sua história numa sequência de fatos que se iniciam em Orós, sua terra natal. Da sua infância a adolescência, recorda emocionada da companhia dos avós, com quem morava. Por decisão dos pais, se mudou para a capital no início da adolescência e, aos 14 anos, já dava sinais de sua visão estratégica quando decidiu sair do Colégio Santa Isabel para estudar no Liceu do Ceará. “Era quase um vestibular. Naquela época, o colégio particular era que tinha deficiências. Quando cheguei ao Liceu, uma escola pública, fiquei maravilhada”, declara.

No quadro de sua experiência estudantil, constam passagens pitorescas como sua atuação no jornal da escola e a tentativa de se aventurar nos esportes, mais precisamente no ping pong. Ainda no Liceu, bastante envolvida com os movimentos estudantis, decidiu fazer Direito. A bem sucedida admissão na Universidade Federal do Ceará (UFC) foi precedida por muita dedicação. “Eu já trabalhava, quando tentei o vestibular. Lembro que ao final do dia, ficava estudando e muitas vezes o vigia chegava e dizia: ‘acabou o expediente’”, recorda.

Após a formatura, Nívea continuou por algum tempo na iniciativa privada, o que a ajudou anos depois a exercitar a administração na Defensoria. Mas sua meta desde essa época era torna-se servidora pública. A essa altura, estava noiva mas jogou tudo para o alto para cuidar de seu avô, que estava muito doente. O hiato na profissão durou alguns meses, quando houve o falecimento daquele a quem Nívea sempre considerou um segundo pai.

Conhecida por ter sido uma boa aluna na faculdade, foi convidada pelo então juiz Vicente Leal de Araújo para advogar na defesa dos pobres em Orós. Pouco tempo depois já era procurada por grandes empresas e pela população em geral. E realizou o que define como advocacia de Robin Hood. “Eu cobrava bem de quem podia pagar e cobrava nada de quem não podia”, relata. Nesse período conheceu o empresário José Wellington Costa Rolim, com quem se casou posteriormente. “O Direito me deu tudo, até o marido”, disse, arrancando gargalhadas dos presentes.

Após passar no 1º concurso público para o cargo de advogado de ofício do Estado do Ceará, hoje defensor público, Nívea assumiu a comarca de Icó, onde atuou por cinco anos. De lá foi transferida para Fortaleza, integrando o quadro de defensores do Instituto Penal Paulo Sarasate. Ciente do desafio, lembra que contou com a ajuda de colegas e tratou de
reivindicar especializações na área, tendo participado de cursos de criminologia e direito penitenciário e especializando-se em Processo Civil. “Minha bandeira sempre foi mostrar que um profissional não pode entrar num sistema penitenciário sem preparação direcionada”, diz.

Eleita presidente da Adpec em 1995 para o período de dois anos, Nívea de Matos avalia que o maior legado de seu mandato foi a institucionalização da Defensoria Pública. É com a sensação de dever cumprido que ela recorda dessa passagem. “Foi a nossa redenção. Houve muita briga e murro de mesa para conseguirmos isso. Muitos achavam a Defensoria Pública uma coisa menor. Até a institucionalização, tínhamos um recurso de 200 reais mensais, que destinávamos para consertar maquinários doados por outros órgãos. Cheguei a ver um atendido de joelhos sendo assistido no antigo prédio, porque lá não tinha cadeiras suficientes”, recorda ela.

De acordo com Nívea, a Lei só foi garantida por conta de uma ação combinada entre os defensores e o então deputado estadual Antônio Tavares. Este, através de emenda parlamentar, conseguiu viabilizar recursos para a associação se manter. Condição imposta à Nívea pelo então governador Tasso Jereissati. “A Lei foi enviada para a Assembleia (Legislativa) no último dia da minha gestão, com solenidade e presença do governador. Ele adiou uma viagem para participar desse momento”, destaca. Em razão dessa luta foi eleita a 1ª defensora pública geral do Estado do Ceará, sendo reconduzida ao segundo mandato e nomeada ainda corregedora. No mosaico de sua trajetória profissional consta ainda sua atuação à frente do Colégio Nacional dos Defensores Públicos Gerais, onde foi presidente por duas vezes.

O caminho trilhado por Nívea de Matos se reflete hoje na satisfação que possui ao rememorar suas histórias. Ao conceder a entrevista para o “Minha história. Nossa luta”, a defensora pública aposentada relata cada episódio com autenticidade e dando o necessário valor a cada conquista, sem falsa modéstia. Perguntada sobre os planos para o futuro, abre um grande sorriso e conta das próximas viagens que fará com as filhas Clara, 29 anos, e Jordana, 26. Ambas profissionais do Direito. A influência materna foi tamanha que Jordana tornou-se defensora pública no Estado de São Paulo. Para o orgulho de Nívea, que termina o papo com seu forte aperto de mão, como quem diz: até a próxima!

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