Em entrevista ao jornal o Povo, veiculada na edição de domingo (16/04), a defensora pública Jerizta Braga, supervisora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem), diz que a maioria das vítimas sofre violência psicológica. Confira:

Jeritza Braga. A violência contra a mulher e os caminhos para a ruptura

Entrevista de domingo: Supervisora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem), Jeritza Braga diz que a maioria das vítimas sofre violência psicológica

A violência doméstica começa com ataques que não deixam marcas físicas. O princípio são ofensas, humilhações, ataques à autoestima. Daí para as agressões ao corpo é um caminho que, muitas vezes, é breve. A análise é da defensora pública e supervisora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem), da Defensoria Pública do Ceará, Jeritza Braga Rocha Lopes.
Em tempos com casos de ataques de gênero repercutindo em todo o Brasil, a defensora lembra que o machismo, enraizado na cultura do País, precisa ser rompido para que as mulheres tenham o que mais desejam: respeito.

O POVO – Diante da repercussão do caso do Big Brother Brasil, muitas pessoas ficaram com dúvidas sobre o que se configura violência psicológica. O que caracteriza essas agressões? Como se identifica um relacionamento abusivo?

Jeritza Braga – As violências domésticas são várias. A gente pensa só que é a violência física, mas ela é, na verdade, apenas uma. Existe a violência moral, a psicológica, a sexual, a patrimonial. É importante que se saiba que de todos esses tipos de violência está por trás a psicológica. É primeira que acontece e se configura em qualquer ato que afete a autoestima da mulher. São as humilhações, as tentativas de mantê-la submissa, sem voz. O homem geralmente tira dela a capacidade de se expressar, a vontade de ter uma opinião. Ele a deixa numa situação de submissão tão profunda que ela passa a sentir que, sem ele, não é ninguém. Ele a humilha, usa palavras de baixo calão. As mulheres que sofrem essa violência, pelos relatos que temos, têm parceiros que são pessoas maravilhosas na frente dos outros. Ninguém percebe a violência que a mulher sofre dentro de casa. Ela acumula cada vez mais funções e nenhuma ele acha que ela faz direito. Ele acha que ela não dá conta da casa, dos filhos, que ela não pode trabalhar. Ele tenta de todas as maneiras que ela não tenha outras relações, com amigas, com vizinhos. O interesse é isolar, para que ela não consiga comunicar o que está acontecendo, que ela não divida aquela situação de violência psicológica com ninguém. Chega ao ponto que ela vive encurralada, cobrada, humilhada, isolada e achar que isso é normal. Ela passa a achar que ele é bom.

OP– É comum que essa violência seja o princípio do que podem vir a ser agressões físicas?

Jeritza – É exatamente isso que acontece. Ele começa devagarzinho, com a violência psicológica, e vai testando, vai aumentando os níveis de agressividade. Depois vêm o segurar na mão, no pulso, o empurrar na cama, o puxar o cabelo, o chute. Depois de cada agressão vêm as desculpas, o arrependimento e, dentro desse ciclo de violência, vem a fase que chamamos de lua de mel, em que ele é maravilhoso, dá flores, quer agradar. Ela o desculpa, e ele reinicia a fase da violência psicológica. O relacionamento passa a ficar tenso, ela vai tendo medo, pisa em ovos por receio de tensionar. Quando a tensão ultrapassa o limite, aí vem a violência física. E aí recomeça tudo outro vez, até o momento que ela consegue perceber e romper.

OP – E como quebrar esse ciclo?

Jeritza – Ela vai perceber, em determinado momento, que esse ciclo está se repetindo. E que as promessas que ele fez não estão se cumprindo. Chega uma hora em que ela cansa e começa a procurar ajuda. Ela ouve na televisão, no rádio, ela começa a falar com alguém. Toma a iniciativa de dar um basta. Nesse ponto, ela pode procurar os órgãos do Estado. As delegacias de defesa da mulher, em que ela é atendida por uma outra mulher, que já sabe a conduta que tem de ter, que sabe a legislação, a Lei Maria da Penha. E ela é orientada a procurar também outros órgão de políticas públicas para as mulheres. O acompanhamento psicológico é importante, porque ela está muito fragilizada. Ela precisa se fortalecer para enfrentar uma separação, um divórcio, uma saída de casa. Ela precisa se empoderar.

OP – As agressões psicológicas estão previstas na Lei Maria da Penha?
Jeritza – A lei trata das políticas públicas para enfrentar a violência doméstica. Os crimes estão no Código Penal. A gente consegue ter as medidas protetivas, previstas pela Lei Maria da Penha, que são várias, inclusive o afastamento do agressor do lar e a recondução dela para casa, se ela tiver saído; além da proibição de ele chegar perto dela ou manter contato com a família. Quando ele desrespeita a medida protetiva, a Lei Maria da Penha prevê a prisão por desobediência a essa medida. OP – Depois das agressões filmadas e televisionadas no BBB, teve uma hashtag que ficou entre as mais comentadas desejando força ao agressor. Isso é um indicativo de que essa violência psicológica ou mesmo física é naturalizada?

Jeritza – Nós temos ainda uma sociedade muito machista, infelizmente. É algo que temos de trabalhar para as futuras gerações. É por isso que é tão importante a educação de gênero nas escolas. O machismo é parte da nossa cultura e só vai ser ultrapassado com a educação, com uma sociedade mais evoluída, com exemplos dentro de casa.

OP – Em casos como o do ator José Mayer, que foi um assédio sexual em ambiente de trabalho e não uma violência doméstica. Como a vítima pode se proteger? Está prevista em lei uma proteção a essa vítima?
Jeritza – Sim, existe o crime de assédio sexual, só que, nesse caso, como não foi no âmbito doméstico, ela não pode ser albergada pela Lei Maria da Penha, mas pode comparecer a qualquer delegacia, registrar boletim de ocorrência, e ele pode ser processado por assédio.

OP – Como é o cenário dessas agressões domésticas à mulher, no Ceará?

Jeritza – O Nudem fez um levantamento ano passado e foi detectado que a violência psicológica é preponderante maior que a moral e a física: 32,34% de mulheres informaram que a violência que elas mais sofrem é a psicológica. Em segundo lugar vem a violência moral (que são crimes contra a honra de injúria, difamação e calúnia) e em terceiro a física. Para se ter ideia que a física é apenas uma das formas de violência e está em terceiro. Foi detectado que a mulher demora de um a cinco anos para tomar uma iniciativa de tentar romper o ciclo, denunciar. Um a cinco anos sofrendo. Muitas vezes, elas não são dependentes, mas mesmo pela questão cultural, pelo medo de sair de casa, medo de ele não ser punido, medo de as pessoas olharem de outra maneira, permanecem no relacionamento. Outra estatística levantada é que a faixa etária das mulheres que sofrem violência vai de 26 a 35 anos, de raça parda preponderantemente. E que a dependência afetiva prepondera sobre a financeira.

O local onde ocorre: tanto no âmbito público quanto doméstico, mas mais no doméstico. A grande maioria delas pede medidas protetivas. Quando vão denunciar, não denunciam só o crime, mas pedem também que sejam protegidas, resguardadas, que ele se afaste dela, não tenha contato. A gente percebe que o que elas mais querem é a medida protetiva, 90% das mulheres que eu atendi quando estava no juizado eram requerentes da medida protetiva. A mulher não tem desejo de vingança, só quer que ele se afaste, que ele não a procure mais.

Ela só quer paz.

DOMITILA ANDRADE

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