Na avaliação da Defensora Pública e membro do Conselho Cearense dos Direitos da Mulher, Mônica Barroso, para quem milita na área, a pesquisa do IBGE não traz nenhuma novidade. Entretanto, afirma, é preciso que se informem sobre esses dados numa tentativa de ajudar as pessoas preocupadas com o tema.

Segundo o Instituto, cresceram os divórcios de casais com filhos menores e uniões de mais de 20 anos. Isso significa, aponta ela, uma quebra no costume de até então, vez que se pensava que era melhor esperar os filhos crescer para pôr fim a uma relação desgastada. Achava-se que permanecer numa relação desgastada era melhor para os filhos, que cresceriam com o pai e a mãe por perto. Ledo engano. “Os problemas que as crianças passaram a ter em virtude do desgaste da relação dos pais foram de tal sorte que se constatou que não valia a pena o sacrifício da espera”, afirma Mônica.

Também cresceram em mais de 57% os divórcios em uniões mais duradouras, com mais de 25 anos de casamento e, por conseqüência, a faixa etária das mulheres que pedem o divórcio também aumentou. “Registre-se que é recorrente que sempre quem tem a iniciativa de requerer a separação e o divórcio é a mulher”, diz.

Informa o IBGE que o fato de as mulheres já encararem o fim das relações com mais naturalidade está associado com a sua progressiva estabilidade financeira, pois entram cada vez mais no mercado de trabalho, também têm ajudado a tomar a decisão de não levar adiante uma relação que não compense emocional e fisicamente.

As relações conjugais ainda são nutridas por uma beligerância sem par alimentada pelo eterno machismo brasileiro que continua colocando as mulheres numa posição socialmente inferior à dos homens.

A classe média, aos poucos, vai mudando sua maneira de pensar e agir e parece estar muito mais preocupada com a felicidade aqui na terra e agora do que antes se fazia.
RELAÇÕES

Mudança de paradigma

Os dados do Instituto apontam outra transformação nos paradigmas do casamento. Se, antigamente proliferava como verdade absoluta o velho adágio: “ruim com ele, pior sem ele”, nos dias de hoje, há uma inversão em grande número de casos e parece que passa a prevalecer o “ruim com ele, ótimo sem ele”.

“Parece que as mulheres cearenses estão se cansando de assumir eternamente a postura das ‘santas’, ou seja, aquelas que agüentam a vida toda um casamento péssimo, na esperança de, pagando este preço, ter entrada garantida no céu um dia”, declara a defensora pública, Mônica Barroso.

Na sua avaliação, elas resolveram deixar de ser santas para serem mulheres. “E, como tais, terem direito a uma vida sem violência e feliz com ou sem marido”, diz. É claro, atesta, que muitos casamentos felizes também proliferam entre nós. “Devemos lutar para promover essas relações exemplares para a sociedade, mas o que constatamos com os números é que os divórcios estão aumentando. É preciso fazer algo. Urgente”.

O estudo do IBGE também aponta nova tendência e resulta, em parte, da legalização de uniões consensuais. Em várias partes, ocorrem casamentos coletivos, decorrentes de parcerias entre prefeituras, cartórios e igrejas.
A opinião do especialista

selmacamara@gmail.com

SELMA CÂMARA*

Rompendo tabus

Falar em divórcio geralmente suscita debate e reflexão. Quando foi oficializado em nosso País no início dos anos 70, gerou polêmica e surgiram opiniões das mais diversas com discursos a favor e outros, contrários. Marcava uma mudança nas relações conjugais e familiares, não só em nível jurídico, mas também econômico, social e psicológico. Atingia até então, a indissolubilidade do casamento. Sofreu ataques de grupos religiosos que defendiam a permanência dos vínculos matrimoniais até a morte.

Nas ultimas décadas, as relações conjugais têm passado por mudanças profundas. A entrada da mulher no mercado de trabalho, a busca de maiores níveis de escolaridade e a realização profissional e pessoal, são fatores importantes no perfil feminino, e afeta o casal.

O fato de mulheres com mais de 20 anos de casamento, com relações estáveis, na faixa etária de 50 a 60 anos pedirem divórcio é extremamente significativo.

Aponta para um contingente da população feminina que, na maioria das vezes, recebeu a chamada “educação para o lar”, onde o papel do homem era sempre o de provedor e que agora, investida de um novo papel socioeconômico, pode tomar as rédeas da própria vida, principalmente nas relações amorosas, rompendo com antigos padrões.

O brasileiro também passou a aceitar o divórcio com mais naturalidade.

Além disso, a mudança da legislação, que facilita a dissolução de casamentos pelo divórcio direto e a separação judicial, influenciou também a mudança da sociedade como um todo e, mais fortemente, observada na mulher.

É a dona-de-casa que tomou coragem para viver essas mudanças. Agora, busca no homem não apenas o “provedor ”, mas o companheiro. Com isso, ela investe na auto-estima, pois o chavão “ruim com ele, pior sem ele” já não tem o mesmo peso que tinha para as nossas avós ou bisavós.

Na atualidade, a mulher sente liberdade para fazer suas próprias escolhas e as faz sem se sentir culpada.

O divórcio não é visto como o fim de um processo, mas o que vai abrir possibilidades para novos investimentos afetivos, geralmente mais conscientes, onde os parceiros vislumbrem relações em que caminhem juntos, construindo e reconstruindo, e não apenas em relações em que predominam dominantes e dominados. Ko

*Psicóloga clínica

ESTATÍSTICA

Casamentos no Brasil ainda superam as separações

De acordo com números do IBGE, foram registrados, em 2007, no Brasil, 916.006 casamentos o que representam um aumento de 2,9% no total de uniões registradas em relação ao ano anterior. Manteve-se a tendência de crescimento observada desde 2003, decorrente, em grande parte, do aumento do número de casais que procuraram formalizar suas uniões consensuais, incentivados pelo código civil renovado, em 2002, e pelas ofertas de casamentos coletivos desde então promovidos. No Ceará, foram 37.798 casamentos, contra 35.655, em 2006. Em relação a 2005, quando se contabilizou 30.090 cerimônias, o aumento foi significativo.

As informações sobre os casamentos, afirma o gerente de Planejamento e Supervisão do Instituto, Paulo Cordeiro, permitem ainda avaliar a idade média dos homens e das mulheres à época da formalização de suas uniões. Em 2007, para o País como um todo, observou-se que, para os homens, a idade média na data do primeiro casamento foi de 29 anos. As mulheres tiveram idade média ao casar de 26 anos.

A análise dos dados dos casamentos por estado civil dos cônjuges evidencia a preponderância de casamentos entre indivíduos solteiros. Entretanto, nos últimos dez anos, foi observada uma tendência de declínio constante da proporção de casamentos entre solteiros, que passou de 90,1%, em 1997, para 83, 9%
Fonte: Diário do Nordeste, caderno de cidade (8/12/2008)
 

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