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“Ele nasceu para ser defensor”, diz Dona Imaculada durante a entrevista com o defensor público aposentado Maramaldo Campelo. Casados há 35 anos, ambos denotam, pela cumplicidade e admiração mútua, uma afinidade conjugal que transcende a relação marido e mulher, e percorre outros âmbitos, como se eles formassem uma pessoa só, tamanha a sintonia. Tão grande que chega ao ponto, inclusive, de um quase completar a frase do outro em diversos momentos.

Deste romance, surge uma história que faz o tempo recuar ou se dispersar em trechos que por vezes emocionam Maramaldo e Imaculada, em especial quando o olhar de um cruza o do outro. É provável que o amor incondicional à família seja imperativo em Maramaldo por ele muito cedo ter perdido os pais. Tão cedo que a única lembrança que tem é de quando seu pai, certa vez, o levou montado a cavalo até a casa de uma tia, por quem Maramaldo foi criado. “Fora isso, só tenho deles a fotografia. E o fato de uma de milhas filhas ser muito parecida com minha mãe”, conta.

Embora nunca lhe tenha faltado nada na casa dos parentes, Maramaldo desde cedo entendeu que deveria lutar por sua independência. Nascido por uma eventualidade em Pombal, na Paraíba, mas registrado na terra natal de seus pais, Palmácia, o pequeno dedicava-se prodigiosamente aos estudos. Morou também em Canindé, na casa de outra tia, onde cursou o primário, e já adolescente, serviu à Marinha, onde tornou-se sargento, passando a morar em San Diego, nos Estados Unidos da América. Só depois retornou ao Brasil para concluir o então científico no Colégio Liceu, em Fortaleza.

Uma passagem marcante da época de marinheiro foi quando o navio em que viajava ficou dias a fio perdido no oceano. “Achávamos que o navio ia a pique e que iríamos morrer”, diz. Mas a vida tinha outros planos para Maramaldo. Após concluir o curso de Direito pela Universidade Federal do Ceará, inaugurou um bem sucedido escritório na área de assessoria marítima. Nessa época, já havia se divorciado da primeira mulher, com quem teve quatro filhos. A verdade é que a paixão por Imaculada parecia estar predestinada, já que ambos são primos. No entanto, só se conheceram quando ele, aos 44 anos, visitou a tia, em Maranguape. Imaculada, então com 24 anos, e Maramaldo, deram início ao namoro, casando-se poucos meses depois. Do casamento, nasceram três filhos.

Ao passar no concurso para defensor público, então advogado de ofício, Maramaldo seguiu com Imaculada para Baturité. Dois anos depois, assumiu a comarca de Caucaia, seguida de Maranguape. Tempos depois passou a atuar nas varas de rito sumario em Fortaleza, seguidas da 21ª Vara, onde ficou até se aposentar. Da época, ele lembra agradecido de todas as vezes em que a mulher, que também é advogada, o ajudou nas petições, passando noites em claro para concluírem os trabalhos, juntos.

Fora tais atividades, Maramaldo atuou ainda como professor universitário, conselheiro da DPGE e subdefensor geral do Estado do Ceará. Perguntado sobre qual o momento mais marcante de sua carreira, é interrompido amorosamente pela esposa, que destaca a ocasião em que ele conseguiu reaver para uma senhora muito simples do interior do Estado, a posse sobre as terras em que ela morava e que haviam sido roubadas por um latifundiário da região. “Esse é o meu ofício. Sou defensor público por amor”, diz ele, cujo projeto de vida é estar entre os seus sempre. Um projeto singelo e ao mesmo tempo grandioso, assim como é o Dr. Maramaldo.

Por Lucílio Lessa

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