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Oficialmente o defensor público é o advogado público que atua na defesa da população carente. A informação já faz parte do senso comum, e embora seja investida de mérito, não contempla com a devida justiça a figura do defensor. Para além dessa informação, o defensor público é alguém que não se fecha em seus próprios interesses. E que se investigado a fundo, apresenta uma trajetória que ilustra sua natureza altruísta. Que o diga a defensora pública aposentada Maria Ivonete Tabosa de Moura.

Natural de Santa Quitéria, Ivonete carrega consigo um passado de luta, algo comum a tantos nordestinos. Aos 4 anos de idade, já percorria meio sertão na barra da saia da mãe, a procura do pai sumido. De cidade em cidade, crescia a olhos vistos debaixo de um sol de queimar o juízo, enquanto a mãe não sossegava até descobrisse o paradeiro do companheiro. Foi quando sentiram o desânimo invadir-lhes como se um peso recaísse em seus ombros. Encontraram o sumido com outra familia.

Vida que segue, mudaram-se mãe e filhos para Fortaleza. E a base de muita roupa lavada pra fora, a matriarca conseguiu encaminhá-los. Ivonete, por exemplo, foi para o internato. “Minha mãe dizia que a gente tinha que ser doutor”, diz, emocionada. Foi quando aos 14 anos, por conta das dificuldades e da saída do internato, Ivonete abandonou os estudos e foi se aventurar no trabalho pesado em uma fábrica de castanhas. “Não me conformava de ter saído da escola”, conta. Aos 19 anos, quando decidiu voltar para a sala de aula, ouviu do então chefe: “Papagaio velho não canta”.

Mas Ivonete cantou, terminou o colegial e foi aprovada no vestibular para o curso de Direito na Universidade Federal do Ceará. Ao concluir a faculdade, foi advogar para o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Crateús, atendendo 11 municípios. Seguido a isso, foi aprovada no concurso público para defensora pública, então advogada de ofício, e lotada em Sobral – apesar da resistência inicial do então Governador Virgílio Távora, que preferia um homem para a comarca. Posteriormente, foi defensora em Santa Quitéria – sua terra natal – e por fim Pacajus.

Com um talento inquestionável para uma boa conversa – basta a primeira pergunta para fazer um Raio X de sua vida –, Ivonete fala com altivez sobre desventuras e com humildade sobre conquistas. E apesar de não ter casado e não ter tido filhos, se considera realizada, pois busca a felicidade no simples, no viver bem consigo e com os outros. “Me realizo ao ver a alegria no rosto das pessoas”, ensina a nobre Ivonete.

Por Lucilio Lessa

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